XVII

Eis outro ser: (O sopro das cavernas

alava lentas crepes e sudários

por entre harpias e harpas friorentas.)

No entanto seu monólogo: este sino

badalando nos ares, badalando

na febre entre delírios e vertigens.

Seu leito em suma: leito o vento frio,

leito a ansiedade, leito paludoso,

vagando em barco doido, todavia!

As janelas bateram: e avozinhas

com seus xales como asas, seus cuidados,

mas tão longe de mim e eu tão sozinho.

Eu o hei sentido assim, galgando o monte

empapado do céu (solo remido),

em salmoura divina como o oceano.

E seus climas: há um homem que vacila

com desolados mantos sobre os ombros,

com abolidas memórias de paraísos.

E a nostalgia sempre sobre as faces,

e o pássaro fatídico nas coisas,

e esse arúspice, e a súplica dos olhos.

E as gravuras da bíblia, a piedosa

vinheta, as altas madressilvas. Cristo!

Ó radiantes demônios, suicidai-vos.

Somos todos ainda: apenas os

passos do vento são cada vez mais

vagarosos. E as barbas crescem brancas.

Ó forças que eu não sei, ó forças várias,

que sonâmbulas asas nos carregam

ao termo das distâncias fugidias?

Ó longo país tão paralelo

com seus rostos de sombras anelantes,

porém a serpe, sempre a serpe antiga.

A estatura da vida nivelada

em dor e suor, em sangue e guerra imunda,

em olvidos de céu antes e após.

E só pressentimentos, só as horas,

a curta claridade entre os abismos

que nos assustam onde quer que vamos.

Hoje já fomos como antigos órfãos

nascidos e morridos ignorando,

ignorando as origens e os destinos.

Fala o ser duplo: elemental pastor,

figura e desnudez, raiva sagrada,

mas seu genial tamanho era uma aurora.

Fala o ser duplo: a obscura magnitude

além das soledades e vigílias,

e noite tão solar mais que insondável.

Era o herói e era a noite um só instinto,

afluentes sem ter términos e fugas

maravilhosos, transparentemente.

Os seus ofícios sempre incorruptíveis

rumos virgens capazes de guiar

os absolutos hojes desses séculos.

São luzeiros de sombras, equilíbrios,

como os lustres dos cactos solitários

e permanentes como os vôos cardiais.

Nos velhos dias, esse herói bifronte,

acaso nunca teve qualquer nome?

Chorava e ria em mim, dizia em mim,

chorava-me, brandia-me, sonhava-me.

O ser intransitivo me acenava

e ouvíamos-nos. Verbos vivos. Verbos.

Coração das quietudes eis a pedra:

falava-nos sereno e compreensivo.

Coração das memórias, eis a pedra.

Esse ouro na fornalha era um bramido,

esse chumbo, em nevoeiro se tornava,

só a pedra escutava com seu olho.

Só o vento era pesado com seus ímpetos:

Belatrix de mostrava imponderável.

Ó desmandado vento, fostes manso!

E se viam (convite ameno) o rosto

antevisto e reaceso, e o caminho alto

em nova luz, pois que se abria puro.

Suas mãos perfuradas se aferravam

a fundas remissões de várias culpas

contidas nas medulas e nos túneis.

Pudor radioso, ao menos em seus rumos,

em suas vozes de tristezas, grandes

pedestais de antes. Gritos. Gritos quedos.

E era paisagem com essas culpas próprias,

emboscadas nas zonas medulares,

e a quietude dos ares sem tensão.

Era o rincho rasteiro e era a asa cinza,

e os ginetes das sombras galopando,

acaso entre sigilos obrigados.

Pés e mãos como Aquele, redimindo.

E tantas punições e tantas culpas.

(Vem para o baile agora, soluçando!)

Ele era visto em meio das procuras,

dos anseios dos homens tormentosos

trazidos a essa selva selva obscura.

Cartuxas o acolheram maternais

nos ocasos cobertos de esplendores

frios nos cimos, frios das angústias.

A eternidade fluía nesses píncaros.

As ouças a escutavam, tocar íamos

o seu perpétuo ritmo para Deus.

A sua biografia que eu relato

é mera condição do pensamento

que as palavras também com Adão caíram.

Pelos quatro horizontes, só e alado,

em ar e estrela as serpes esmagando

por herança materna o cravejado.

As palavras aladas o impeliram

em seu halo sutil de nome leve,

de febril coração manancial.

Deu-nos cânticos para ser lembrados,

peixes de prata para os barcos viúvos

suas mãos perfuradas imitávamos.

Agora e sempre está. Ausência e sol

em seu peito lunado há estações

da duração do bem e da alegria.

Medulas extraviadas, sim havia

tão lavadas de crime como as chuvas

empurradas nos pés, refeitas de ímãs.

E as albas com dessangre, os aros fundos

em desbordo contínuo, céu de terra,

e a aventura um caminho só, no espaço.

Em verdade, é uma pátria foragida

em que o desconhecimento é até nos ossos,

e as presenças de fora nos espiam.

Os instantes maiores conviviam,

sangue diurno, parece sementeiras.

As horas casuais estão aqui.

Ó ginetes, ó cegos cavaleiros

de órbitas de betume, almas e cascos,

ventos nas crinas, rubras liberdades!

Ó potros e sinais, ambos a um tempo,

ambos num rapto, mímica total,

entranhas num só mar de julgamentos!

Os instantes deslizam-lhe na face,

ele mesmo é uma quieta ressonância

também inumerável geometria.

Ó os montes em seus olhos, as lagunas,

as águas que eram vinho, os pescadores

andarilhos do mar, violento mar!

A província de sumos e ardentias,

e as perguntas nos barcos, e as cisternas,

e os ocasos de preces e de lagos.

Golpearam-no, sem vê-lo, ó grão-teatro,

ó máscaras nos montes espectrais

e bufões convocados a apupá-lo!

Rasgou-se o véu do tempo e ele surgiu

com essa face de claune e de deus triste,

e consumou-se. Infernos aplaudiram.

Ali teu solo. Digo-te semente.

Digo-vos mananciais, sulcos de versos,

digo-vos sombras de asas, hortas, vinhas.

Eu escuto, reescuto a artéria túrgida,

e o tiritar dos dentes na porfia,

lívidos de caliça como trigos.

Cobertos de livores se profanam,

doem-se deles os puros cordeirinhos;

sina-os o dia da ressurreição.

Chorando estais, chorares silenciosos,

caindo em minhas mãos como novelos

de lãs (o pranto maternal e suave).

Missão de poeta, símbolos e vôos,

razão das asas, fé capaz de vidas,

límpido humo celeste, semental.

Homem de terras úmidas, sangradas,

sêmen dos que procriam gredas unas,

engendrado dos germes essenciais.

Tempo das mutações, tempo à deriva

flui a torrente na serena mão,

com seu laivo de avença e redenção.

Eu vos designo aqui, privado Sol

e Som de coração. O mais não urge.

O mais: afortunada translação.

COUTINHO, Afrânio (org.). Jorge de Lima. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, vol. I. p.654-655.

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