O CABELEIRA

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Uma manhã um rapazito descorado parou à porta da bodega, saltou do cavalo abaixo e mandou medir contra metade de aguardente.

Olá, menino José. Muito cedo navega hoje; disse Timóteo ao recém-chegado.

Parti de Santo Antão na madrugada velha, tornou-lhe o hóspede.

Enquanto o taverneiro aviava o matinal freguês, o cavalo que jejuava desde a véspera, pôs-se a devorar a grama do pátio, e, sem consciência dos riscos em que ia se meter, foi cair muito naturalmente dentro da pequena roça da mameluca e começou a destruí-la mostrando tenção de dar conta dela.

Mas ainda bem o primeiro jerimum não se havia derretido entre os poderosos molares do faminto animal, quando a dona da plantação desfechou neste tamanho golpe com uma das estacas da cerca, que o pobrezito, dando às popas pelo meio do pátio, foi atirando os sacos aqui, os caçuas acolá, a cangalha além, e desembestou por fim, pela margem afora, em violenta fuga.

Não satisfeita com semelhante desforra, Chica em um pulo ganhou a venda, e investiu com o inofensivo matutinho.

Amarelo de Goiania! gritou-lhe ela ao pé do ouvido. Não sei onde estou que não te ponho mole com este pau para te ensinar a amarrares melhor a tua besta esganada de fome.

O rapaz, volvendo a vista ao volume humano que lhe acabava de falar e cujos olhos pareciam querer saltar das órbitas, respondeu-lhe sem se alterar nem mover:

Bêsta ! Bêsta é ela.

E, senhor de si qual se estivesse gracejando com um amigo, levou o copo aos lábios com o maior sangue frio que ainda se pôde mostrar na taverna, onde as paixões se acendem com a prontidão do raio.

Irritada por esta represália que a seus olhos pareceu condensar todo o desprezo do mundo, a mameluca não teve dúvida, não, e levantou a acha para o rapazito.

Tinha este deposto o copo sobre o imundo balcão quando pressentiu a arremetida; pode por isso fugir em tempo com o corpo à violenta pancada. A estaca bateu a meio no balcão, e metade dela voou pelos ares em estilhaços que foram quebrar as panelas de barro e as poentas botijas com que se achavam adornadas as sujas prateleiras da pocilga.

Ouviu-se então um estalo, e logo o baque de um pesado corpo. José havia desandado com tanta força uma bofetada na mameluca, que a fizera cair redondamente no chão.

Quis Timóteo acudir à companheira na apertada conjuntura que se lhe desenhou aos olhos com as negras cores de um desastre, ou vergonha para o lar e bodega onde nunca sofrera afronta igual ou que com esta se parecesse. Mas quando apercebia o ânimo para dar o arriscado passo, descobriu na mão de José uma faca de Pasmado que o reteve a respeitosa distância.

Julgando-se José, à vista do agravo que recebera, com direito a público e estrondoso despique, arrastou por uma perna a mameluca, ainda tonta para o terreiro, e aí, com uma raiz de gameleira com que os meninos tinham brincado na véspera, começou a pôr em prática a mais edificativa sova de que nos dão notícias as tradições matutas.

A mameluca tentou por diferentes vezes livrar-se das mãos do rapazito, espernegando como possessa. As mãos de José porém pareciam, pela dureza e pelo peso, manoplas fundidas de propósito para esmagar um gigante. Demais, José havia posto um pé no pescoço da Chica, e com ele comprimia-lhe o gasnete, tirava-lhe a respiração, afogava-a sem piedade.

A estrada estava deserta. Os moradores da povoação, de ordinário madrugadores, por infelicidade da caseira de Timóteo dormiram mais nesse dia do que tinham por costume. Além disso, as casas mais próximas da venda ficavam ainda a distância, sendo todas, como então eram, muito espalhadas. Esta circunstância, tirando toda esperança de pronto socorro, animou José a prolongar o exercício para o qual podia dizer-se estava preparado por diuturno hábito.

Depois de alguns minutos, sentiu Timóteo subirem-lhe enfim às faces os restos do equívoco brio e gritou, sempre de longe:

Você quer matar-me a Chica, José?

Deixe ensinar esta cabra, seu Timóteo. Ela nunca viu homem, e por isso anda aqui feita galinho de terreiro, ou peru de roda, metendo medo a todos estes papa-siris dos Afogados.

Assim dizendo, José mostrava-se literalmente na mameluca, e dava-lhe com os restos da raiz da gameleira já sem serventia. A faca, que minutos antes reluzira em uma das mãos, estava agora atravessada na boca do matuto, em quem o ignóbil vendeiro parecia ver, não uma figura humana, mas uma visão infernal que o ameaçava, a ele também, não com igual pisa, mas com a morte, que para ele era mil vezes pior.

De repente José colheu o ímpeto, pôs-se de pé, e inquiriu de si para si:

E o meu cavalo?

Correu incontinente à margem e soltou um longo assobio que atroou a solidão mal desperta; a margem estava erma, e só o silêncio respondeu ao seu chamado. Tornou ao pátio onde alguns vizinhos, finalmente atraídos pelos gritos, ao princípio furiosos, depois rouquentos, e por último cansados e quase imperceptíveis da moribunda mulher banhada em sangue, tratavam de restituí-la à casa.

É o que te vale, cabra do diabo! disse José, olhando para o volume inanimado que mãos tardiamente piedosas arrastavam ao casebre. O que te vale é ter eu que ir em busca do meu cavalo. Se não fosse ele, nunca mais comias farinha.

Dias depois voltou José, montado no seu cavalo, trazendo uma espingarda nova na mão, uma faca no arrasto pendente da cintura, os cacuás cheios de peças de pano e outros objetos que se vendiam nas lojas da vila.

Boa tarde, seu Timóteo, disse ele, pondo-se em terra de um pulo e entrando sem-ceriônia na tasca. Dá-me notícias da Chica?

Você ainda vem falar nisso? redargüiu o vendeiro com semblante hipócrita, mas na realidade sobressaltado.

Por que não? Queria acabar de dar-lhe a lição que principiei na quarta-feira. Mas desta feita a coisa havia de ser de outra moda. Queria ver se lhe entrava nas banhas da barriga este facão, como entra nesta melancia.

Pois não sabe que a Chica morreu da sua tirania?

Ah! fez esta bestidade? Pois então, para celebrarmos o caso, bote aguardente e bebamos.

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TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. São Paulo: Edições Melhoramentos, s/d, 2ª edição, p.33-36.

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